Acordou absorto e meditabundo. Estava numa fétida e afastada rua inebriada de diversos odores humanos. Suas vestes estavam rasgadas e perturbadas tal como sua face imunda. Moscas lhe beijavam o corpo. Moscas lhe cantarolavam em graves timbres a miséria ao pé do ouvido. Desejou papel e caneta para escrever. Escrever o que o afogava por dentro. No mais recôndito do âmago da complexidade de seu ser. Queria regurgitar seus escombros, dar à luz ao caos que havia cravado dentro de si. Ou mesmo, apenas registrar desordem. Levantou-se esbarrando em garrafas, seringas e o que se pudera. Abandonou a avermelhada rua deserta. Rubra como sangue. Poderia ser o alvorecer menstruado ou o próprio inferno em chamas. Ou ainda, talvez somente seus delírios inóspitos aproveitando para caçoar de sua embriaguez.
     Caminhou. Sentou-se em frente à uma longínqua padaria, numa larga calçada já na cidade. Olhares moralizantes o atravessavam como escória da sociedade. Vá lá, ele não se importava com aqueles narizes empinados, consumidores de jornais pagos e bebidas diurnas que poderiam nascer num lar, com menor custo e mais sabor. Olhares que, ao contrário dele, dispunham de moradia para descansar o esqueleto, tal como uma casa, aparentemente não um lar. Observava a tudo. Ouviu o noticiário pelo som advindo de uma moderna-magrela TV: Um homem morrera na construção. Olhou para baixo e silenciou seus pensamentos. Viu através de um espelho, onde pousava uma mosca, que a jovem repórter sorria para as notícias da sequência que retratavam as festividades do carnaval brasileiro, bem como a competição de fotos de poodles e suas madames. A propaganda do refrigerante era mais longa do que os dez segundos dedicados a pôr fim a existência daquele trabalhador. Bebeu de angústia brindando a sós e em pensamento pela petrificação humana. Saiu enquanto eram anunciados os números dos jogos e aos múrmuros e reclames dos homens ali presentes, aparentemente jogadores e que faziam aquilo parecer um evento dedicado àqueles que só se percebem como gente, caso sejam agraciados com quantias bravas de dinheiro. Gente que atribui apequenidades e valor à própria efêmera existência.
      Apanhou uma bituca não identificada e tentava qualquer chama que pudesse ser emprestada a acendê-la.  Ao atravessar a rua, fora atingido de raspão lacônico por um carro cujo motorista murmurava o quanto seu precioso-escravo-dia seria afetado, se atingisse uma escória que não sabe existir por não se enquadrar no sistema pelo qual o motorista alimenta seus filhos. Perambulou pelas ruas. Carros buzinantes na falta de trânsito, pedestres com olhares petrificados com seus aparelhos portáteis, audições penetradas de fones, crianças que torciam e tapavam seus narizes ao notar seu cheiro, escravos engravatados, pessoas que não o viam era a grande maioria. Os que o viam dividiam-se entre ignorar e proteger seus preciosos pertences materiais. Pensou consigo: “Droga, estou ficando lúcido cada vez mais depressa”.
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*Chinaira Raiazac*
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Um comentário sobre “Imprestável!

  1. Simplesmente sensacional, embora eu ainda leigo no que se refere a um amplo vocabulário, tenha tido algumas dificuldades de compreensão, pude interpretar muito bem a finalidade e a exposição da sociedade contemporânea que o texto nos submete. Sociedade que como um famoso cantor diz: “O dinheiro vale mais que a gente”. E que aos olhos dos seguidores do sistema(vulgo senhor bem sucedido) é um pobre coitado, porém pobres coitados são aqueles que acreditam ser os donos da verdade absoluta, sendo que essa sequer existe.

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