PARTE I

     Sabe aqueles arrepios profundos que invadem a essência humana? Dentro do meu ser, eles alcançam um lugar que equivale ao que chamam de “alma”. Eu tenho vários deles. Várias vezes ao dia. São campos energéticos que podem ser explicados por diversas perspectivas fenomenológicas, desde o senso comum, à física quântica. São de todos os tipos, intensidades e durações.

       O combustível deste post é um daqueles arrepios que me faz murchar por inteira. Sinto-me encolhida como formiga. É estouro fatal e é barulho mortífero. Não simplesmente ensurdecedor, mas estrondoso e insuportável. Eu sinto. Recebo. Os olhos marejam e transbordam o que não cabe dentro de mim. É desse arrepio que quero compartilhar com você, que lê tamanha expressão reduzida à uma tela virtual por onde escorregam seus dedos e/ou olhos. Juro: eles tinham de 9 à 12 anos. Estavam em muitos.

        Cordas vocais imaturas denunciavam a infante circunstância. Seus cabelos eram raspados de forma decorativa. Como xadrez e escritos específicos daqueles que conhecem realidades perigosas. Além de perspicaz audição, minha sensibilidade captou a tudo num lacônico olhar, afinal, respeito às dignidades alheias sem fitar publicamente seres estranhos à mim.

       Revezavam-se para consumir álcool. Fumavam algo que minha miopia não alcançava. As infantes cordas vocais cantarolavam o ritmo de uma sexual apologia ao crime. Conflitavam verbalmente pelo álcool. As garotas semi nuas. Os garotos com excesso de metal em bijouterias. Posso re-jurar: Eles tinham de 9 à 12 anos.
O Estado não quer. A elite discrimina. O capital escraviza. A classe média fetichiza. A penitência cobiça. E você? E eu? De que se alimentam os sonhos dessas crianças?

     Era meia noite. Hora de balconista fechar o estabelecimento em que cresceu e encerrar a tripla jornada. Afinal, da balconista, levanta diariamente às 05h30 uma professora.  É hora: Levantar os olhos. Disfarçar as lágrimas. Elaborar o luto deste pecado sem culpa, crime sem réu, assassinatos invisíveis. (E eu?) Sou a formiga. Me arrepio e me encolho diante do Halloween Social, mas com a real resistência de formiga. Luto, bravamente. Não me rendo. Não vou salvar a pátria com o giz na mão, mas tenho no coração o alívio de não esperar passivamente por um mundo melhor, e sim, trabalhar pra construí-lo num olhar juvenil. Faço o que posso. E você? Tem a honra de fazer parte do romântico desclassificado e utópico “trabalho de formiguinha”?

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**Chinaira Raiazac**


SONHO DESNUTRIDO – PARTE II

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2 comentários sobre “5 de Desgosto de 2016 – Sonho Desnutrido !

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