Mal dormida há dias, Jurema acordou da tentativa de adormecer. Levanta bocejante e em estado zumbi coça a cabeça. A modernidade e o processo cultural no qual sua intersubjetividade fora construída e alimentada a faz rejeitar seu cheiro natural e clamar por um banho. Lamenta que o café esteja menos aquecido do que geralmente aprecia. Engole assim mesmo. Morno, sem açúcar, desce seco.

Eis que dentre as burocracias cotidianas do hoje, Jurema depara-se com questões do ontem. No dia anterior Jurema é explorada  por uma colega que a saber mais de sua intimidade questiona:

–  O que te inspira?

Céus, infernos, raios, relâmpagos e trovões. Que diabo de pergunta era essa? Não poderia Jurema fazer uma tese de doutorado ali mesmo, crua e às pressas. Não poderia Jurema satisfazer tamanha complexidade em palavras. E caberia aqui a distinção da complexidade fantástica do interior de uma cebola e um cru grão de arroz. Jurema atendeu ao pedido do grão de arroz e o ofertou cru:

– Caos, amor e vida. – respondeu, ontem.

Na progressão do hoje, Jurema nomeia paixões na prosa. E a sagaz colega questiona por mais paixões. Jurema, no ímpeto, assume que são várias e avassaladoras. Mas talvez não tenha se feito entender entre arroz e cebola, quando é questionada por paixões humanas. Ela poderia divagar sobre o quanto se apaixona pela fumaça do calor de seu café a beijar suas narinas, mesmo não tendo sido contemplada com tal benção no amargor de hoje. Poderia tanto! Dizer do quanto se apaixona pelo silêncio do escuro ou pela sinfonia da chuva, com simbologias cardíacas, dentre um arsenal de paixões grandes e pequenas. Entretanto, diante da compreensão de que a pergunta gestava a especificidade de paixões humanas, Jurema simplesmente indagou:

– Mas as paixões se limitam às pessoas?

– Não limita, mas você falou de amor – fora a resposta.

Foi então que Jurema percebeu conjuntos embramados de fatos acebolados dançando em suas sinapses neurais. O primeiro, que talvez só seja possível amar pessoas na percepção de sua colega. E depois, Jurema falara de amor, ou mencionara amor? E falaria ou mencionaria somente amor? Não! Jurema ofertou o grão de arroz “Caos, amor e vida”. Onde estaria Caos e vida?  Se só amor foi pescado, já não falamos de Jurema, e sim da pescadora de respostas que toma pra si projeções que talvez façam mais jus a seus espelhos internos, o que lhe bastar.

Mas mesmo que Jurema não tivesse simplesmente mencionado, mesmo que tivesse se alongado a falar e mesmo que tenha sido “falar de amor”, Jurema não pôde dar o que se pedia. E foi assim que Jurema refletiu sobre a comunicação humana. Não em suas peculiaridades, ora, mas em suas vértices coletivas. Se pegou a problematizar com arroz e cebola as emissões, recepções e ruídos e entre os abismos do que se pergunta, responde, pensa, anseia, constata. No fim, pensou Jurema, as perguntas são como clitóris ocidentais: Uns encontram certa conformidade e satisfação na resposta que lhes são ofertadas, outros passam a vida sem respostas e sem descobrir a magia de se fazer perguntas. E nessa mixórdia a comunicação humana é masturbação que se contempla, ou não.

 ** Chinaira Raiazac**

jurem

Créditos de Imagem: Artes Sales.

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2 comentários sobre “Questões de Jurema!

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