Às 09h15m do domingo de 24 de fevereiro de 1991, em Goiânia, Goiás, o útero de Selene lançava ao universo – via cesárea e prematura de sete meses –  Chinaira Raiazac, que por motivos velados no charme cósmico da neblina, seria registrada apenas no mês seguinte. Ainda que na relação de mãe e filha caiba a brincadeira “Minha mãe atrasou o mês de meu registro porque estava decidindo se dava, ficava ou jogava fora” é divertido pensar que o feito engane as astrologias confiantes em falsos pedaços de papéis quando da avaliação das posições das estrelas.

Pedaços de papéis que a civilização intitula documentação na tentativa de organizar o comboio em massa a partir de registros numéricos, não foram discutidos às claras por Selene e Chinaira quando da especificidade discrepante dessas datas. Mas, claro que o espírito arteiro e infante de Chinaira questionaria Selene aos seus 10 anos de idade, com as mãos na cintura e o pé batendo ao solo, como quem cobrava uma explicação diante da arte de encontrar outro pedaço de papel – teste de Guthrie – o teste do pezinho que desiludia o conhecido março e denunciava o tal velado fevereiro.

Sem engolir as explicações da década anterior, noutro domingo de 26 de fevereiro de 2017, então em São Paulo, Chinaira se põe a pensar nas tentativas, erros e acertos escondidos nos escombros das subjacências de 26 outonos, primaveras, verões e invernos de sua vida, num país tropical que abarca, por vezes, as quatro estações no mesmo dia. Chinaira e Brasil têm muito em comum nesse sentido. A tropicalidade que engole variações pluviométricas chocando cronos e kairos, caos e calmaria, períodos secos e úmidos marcaram presença nestes 26 processos de quatro estações. Neste sentido, Chinaira é o próprio Brasil a escrever história na chuva carnavalesca de fim do fevereiro, que a faz olhar pra dentro enquanto observa ruas alagadas.

“Como é fazer 26 anos?” e “O que mudou?” – houve quem perguntasse. Claro que, como Jurema, dever-se-ia fazer uma tese de doutorado acebolada pra responder a complexidade da pergunta sem o reduto de grãos de arroz. Vamos ver o que mudou: Chinaira continua pulsando entre vida e morte. Continua acordando e adormecendo. Continua sagrando mensalmente pra fazer jus à oferta biológica que lhe foi feita da combinação cromossômica XX. Ela aceita e continua rejeitando e expelindo seus óvulos não fecundados. Continua na solteirice e na cama de solteira, num cubículo. Continua às moscas e faíscas num depósito de tralhas. Continua sensível, como é sua essência. Continua se apaixonando por animais, crianças, e momentos lacônicos, feito estrelas cadentes. O coração de Chinaira continua bombeando sangue pro resto de seu corpo. Suas sinapses neurais continuam caóticas, herméticas e parabólicas, ainda que suas células não tenham sequer experimentado substâncias tais como cannabis ou mais intensas – sem aspectos pudicos, castos ou de orgulho, é apenas um registro, afinal não há possibilidades de sair de mercados, padarias ou farmácias ocidentais sem consumir drogas. Outro registro nada casto ou pudico é fato de que à essa altura do campeonato o maior órgão do corpo de Chinaira, sua pele, não recebeu agulhas com tintas que marcassem em tattoos seus gostos, jeitos, apreciações, tendências ou filosofias. Chinaira não teria respostas prontas dos porquês não se tatua. Talvez não sucumba à moda, talvez lhe faltasse pele se decidisse usar a sua própria como tela de projeção do caos em si, talvez pelo temor de que sua essência metamorfósica ou sua vênus em áries enjoasse depressa de tudo que é estático ou se cristaliza. Mas tem preguiça de vasculhar o arroz dessa resposta.

Chinaira contínua e continua! Chinaira continua se entupindo de cafeína. Mas bebe bastante água por teorizar sozinha que, além de ser bastante saudável, num continuum o ato evita danificar seu estômago. Aliás, a cafeína é mais amada que antes, por simbologias românticas. Chinaira contínua e continua! Continua apreciando a esporadicidade da nicotina mentolada. Continua ouvindo velharias musicais excêntricas e continua uma eterna adia(dor)a. Continua elevando os saldos dos débitos das dívidas egóicas de filmes, séries e literaturas. Não é nerd, nem geek, nem poser. É Chinaira, contínua e adia-dor-a. Não atua nas peças, nas regras, não dá a mínima, por vezes. Por vezes lhe falta vida ou temor pra seguir o teatro escrito por outrem. Chinaira continua nos silêncios, respeitosos de melancolias e tickets de viagens dentro de si. Continua fazendo de seu cabelo um arco íris não simultâneo. Ah, essa sim é uma boa tela de projeção. Imagine você que, aos 26 de fevereiro de 2017, já se teve 4 estilos e cores de cabelos neste ano, sendo o atual um preto curto que ascendeu a iluminação natural da face de Chinaira. Talvez agora sossegue – digitou e riu.

Chinaira continua brincando com fogo, se expondo sem se expor, num mundo que enxerga mas não vê, escuta mas não ouve. Continua gozando a vida. Continua respirando, se alimentando e se banhando – sempre que possível. Continua conversando com cachorros de rua, dando atenção às almas embriagadas – que não sexualizam o tom do encontro. Continua conversando com almas estranhas, nos transportes, nas ruas, calçadas, nas filas, nas oportunidades da vida. Continua recebendo e aceitando os sinais do cosmos. Imagine que rasa coincidência agradável seria ouvir o coletivo da vizinhança cantando “Parabéns” pra alguém sem entender o cosmos e receber a canção também pra si. Contínua e continua a ajudar a tudo que respira, sempre que pode. Chinaira, feito louca ou bruxa, conversa também com objetos inanimados. Chinaira conversa com tudo, na verdade. Chinaira conversa, ponto. Continua conversando! Continua escrevendo, ou transcrevendo. Continua mestre de meia tigela, se auto desqualificando em silêncio e a sós por saber que os pedaços de papéis que a reconheceriam academicamente como mestre são atuações em nível macrossocial. Mas continua perseverante no sanar de suas lacunas pessoais, com a humildade do silêncio que pode ser alheiamente qualificado como fraqueza. Continua outsider das redes sociais, e tentando socializar de verdade. Continua sentindo falta da falecida caixinha, mas também continua longe de suplicar por migalhas de inverdades. Continua malhando, (há menos de dois meses) claro. O faz por saúde e uma pitadinha estética. Continua faminta de culturas, mundos, idiomas, pessoas, combustíveis sensitivos e descobertas nascituras.                                                                                                                 Chinaira não é mais professora estadual, o que lhe possibilita finalmente dormir mais de 4 horas diárias. Mas Chinaira continua nascitura professora, de projetos sociais voltados à pessoas em situação de rua, usuários de substâncias lícitas e ilícitas, pessoas trans e até professora de instantes nas ruas. Continua, Bertha, Elizabeth, Larry, Cecília, Jurema, Marília, Senhora, Sóbria, Bailarina Torta, Niarachi, feito fases de Sofia e velho Fuzil, como “Oráculo de Mil Nomes”. Continua na estatura baixa, no peso aceitável. Continua engolindo pensamentos e expelindo pérolas. Então o que mudou, se só se usa “continuação” nessa linguagem toda? Se continua X, Y, ou Z, então, e talvez, nada tenha mudado, além do envelhecer da aurora de sua carne, espírito e perseverança. No pessimismo continua desperdiçando saúde mental, cronus, óvulos e perdendo audição. No realismo de seu otimismo ganha kairos, tara e vivências, resiliências e até amores e paixões, em doses nada homeopáticas que temperam a sede de cidades vizinhas ao seu modus itapeviense operandis. Contínua e continua! Feliz aniversário pra você que reseta o relógio sem apagar os erros e os danos, por entender que seu presente e futuro carregam inerentemente seu passado. Feliz aniversário pra você que continua e continua, sobretudo, escrevendo na terceira pessoa.

   ** Chinaira Raiazac**

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3 comentários sobre “Happy C’Day: Domingariedades da Vida!

  1. Obrigado Selene, você nos trouxe não só Chinaira mas Jurema, entre outros personagens, que hoje nos enriquecem com suas peculiaridades tão comuns e raras. E Chinaira parabéns, você continua sim; continua linda, continua em crescimento espiritual e filosófico, continua nos fazendo refletir, continua nos fazendo bem.

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