Carmen recusou o coração de um escorpião, e este por completo ao notar que faltara partes do pobre animal. O coração ali estava, aos seus pés. No entanto, o corpo estava noutra cidade e o pênis fora perdido numa orgia marítima. Sim, Carmen recusou-o com razão. Argumentara que de nada lhe serviria o fragmento, uma vez que, feito Cecília, partes cardíacas soltas por si só não lhe apeteciam nas compras em alto mar.

– Podemos adestrá-lo e torná-lo inteiro, senhora. Castraremos-o e este será ….

Carmen irritou-se com o vende-dor.  Interrompeu-o. Tal senhor não entendera que ela buscava algo inteiro, livre, sincero e autônomo por si só, sem sacrifícios, adestramentos ou concessões. O problema não eram as orgias ou as cidades, e sim a neblina em alto mar e em fragmentos diminuídos gratuitamente. Castrar um escorpião não lhe convinha.

Maldito vende-dor! Garantias falsas, desde a adoção, na qual reforçava-se inteireza numa abordagem franca. Mas só lhe restara faíscas. Ora, se Carmen cansara-se de hipocrisias do mar, certamente tais propostas furadas não lhe faziam sentido. O mar todo adentraria aos poucos tantos furos. E o sal logo corroeria ou germinaria a todas as faíscas. Mazela ou não, fato é que Carmen apaixonara-se pelo escorpião a venda ou adoção. Apaixonara-se com leal espontaneidade. Algo a impedia de descartá-lo prontamente como mandava seus velhos hábitos.

Deixou então que o vende-dor publicizasse seus otimismos baratos. Ouviu. Ouviu. Tempos depois entregou-se a estes. Na pior das surpresas desvendou desgastas mentiras do vende-dor. Afinal era ele essencialmente um vende-dor. No ramo da publicidade marítima diz-se que são todos iguais. Alguns mais albatrozes, outros menos. Sorrateiramente numa sombra cálida e gélida era menos. Era menor que um projeto de homem arquitetado em moldes de quinta categoria a discrepar palavras de atos.

Carmen custara a acreditar que ouvira com esmero um clichê vende-dor de escorpiões alimentado pelo imaginário coletivo do marketing e da propaganda. Diz-se mesmo que são todos iguais. Sábia ou tola, foi surda. Mas os olhos pagaram o preço. Por vezes também os ouvidos.

    Talvez por amor acolheu e recolheu os cacos. Mas amor não se mencionara ainda. Pobre Carmen! Picada pelo escorpião pelo qual deixou-se apaixonar. Doeu insuportavelmente. E embora ela soubesse que não era o fim, precisou cicatrizar-se miseravelmente. Mas Carmen é de difícil cicatrização, admite. Mais ainda quando o estúpido vende-dor é explicitamente convocado a desculpar-se e nunca comparece à audiência com nitidez.

Aí é que então evidencia-se: Culpado! Nada havia de incomum no produto escorpião, senhor vende-dor. Vosso imaginário era tão impregnado coletivamente por clichês como outros. Este, como outros, picava e como outros doía. E muito. Este jurava que abjurava, sem necessidades. Dizia que preferia mas preteria, secreta e dolorosamente. Talvez o pior dos fatos tenha sido brincar com estes parônimos. Já que era, na verdade, um grande come-dor de caldas infectadas do mar. Comia a todas num ritual que prezava seu ponto de vista para comê-las mais realisticamente possível. E como gozava ao rito, como um nato come-dor! Grande come-dor! Agora sim inteiramente albatroz.

Carmen realmente enfrentava dificuldades de cicatrização. Não pelos atos, mas pelos parônimos. Cortes aparentemente superficiais lhe foram profundos. Carmen tinha pele plástica, compunha ambos dotes: Fragilidade e Resiliência. Ela viu o mar em tempestade. O céu desabou em sua cabeça. Farsas celibatárias que comprara no mesmo pacote também desmoronaram instantaneamente e o terreno mais bonito que conhecia sobre águas marítimas tremeu-se. Abalou-se.

Desespero marketeiro ou não, o vende-dor de escorpiões marcou o ato pedindo descontos e propondo uma grande promoção. Carmen silenciou-se. Agora sim mencionara amor. Ouviu sobre amor, sob estrelas. Mas tremeu. Como tremeu! Estava frio e não sabia lidar com um amor de promoção num frio atropela-dor que alcançava sua alma. O silêncio marcara o evento da promoção. Carmen propôs um acordo de cristalinicidade a dois. Mas tem repensado a sós. Não sentiu real aderência por parte do vende-dor de escorpiões. Pelo contrário, pequenos atos cotidianos lhe foram laboratórios de legitimações. E estas de lados opostos. Em seu laboratório Carmen analisara o escorpião adquirido pelo vende-dor sob microscópio. Tudo que se via a olho nu era bastante comum à espécie. Mas ela intuía que não se tratava de algo completamente parco ou reduto. Sentia que o melhor não se via. O problema é que seus olhos nus não acompanhavam um incólume coração. E o laboratório de olhos nus nem sempre favorecia. O escorpião em adoção fora subitamente vendido, senhor vende-dor.

Carmen se dizia impávida e é. Mas também é frágil esta mulher. Seu coração está aos cuidados de um escorpião. E ela tem relevado o vende-dor. No entanto também tem alimentado minhocas em seu laboratório. Basta! Antes que seja engolida é hora de repensar acordos. Perdeu-se muito, fato aceito. Carmen não quer gozar a luz de uma zona de conforto que afirma vende-dores como errados. Mas adotar ou comprar escorpiões é trabalhoso por demais. E ela não havia ido tão longe. Até mesmo medica-se para legitimar a existência concreta da assiduidade. Mas Carmen é também ácida. Prometeu a si mesma não esquecer ser uma Fênix ao se entregar ao escorpião.

vende-dor

**Chinaira Raiazac**

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s